segunda-feira, 2 de junho de 2014
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Estudantes do 9º ano visitam o Forte de Peniche
terça-feira, 24 de julho de 2012
Ilhéus Para Sempre
sábado, 14 de maio de 2011
Teatro na Anselmo

O Grupo de História, com o apoio da Biblioteca, vai dinamizar a vinda à escola, no dia 19 de Maio às 16.15h, do Teatro Azul com a peça História do 25 de Abril. O espetáculo, com autoria e encenação de Nuno Miguel Henriques, insere-se na evocação e comemoração da Revolução de 25 de Abril de 1974 e destina-se preferencialmente aos alunos dos 6º e 9º anos.
Os alunos interessados devem contatar os respetivos professores de História.
"Esta peça de Teatro conta a história da revolução dos cravos, as origens e contexto. (...) desde o Marcelismo até ao pleno funcionamento da Democracia e a entrada em vigor da nova Constituição de 1976. Um Sucesso original e actualizado com nova encenação e revisão de texto em 2010 e 2011. (...) Este espectáculo é interactivo e relata a conjuntura histórica recorrendo a instantes visuais e musicais, ilustrando desta forma o desenrolar dos acontecimentos (...)"
A sessão realizar-se-à no Refeitório da Anselmo.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Heróis Modernistas
quarta-feira, 17 de março de 2010
Para lembrar o 25 de Abril e os anos 70
Cartaz de João Abel MantaPor razões de segurança, e sempre que possível, proceder-se-á à reprodução prévia dos materiais a expor, preservando-se os originais. Garante-se em todos os casos o maior cuidado na exposição das peças.
Para efeito do empréstimo de materiais, poderá ser contactado qualquer professor do grupo de História ou a coordenadora da Biblioteca Escolar.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
A queda de Berlim e o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa


Recuemos umas semanas. Primeiros dias de Abril de 1945. A capital do Reich aguarda o massacre, resignada. Todos sabem que a derrota é inevitável. Apenas os mais fanáticos dos nazis acreditam ainda. Esperam um milagre que não acontecerá. O Reich dos mil anos afunda-se em sangue e lágrimas, escassos - mas terríveis - doze anos após ter nascido. As linhas da frente estão a uns meros a 60 quilómetros. A Prússia Oriental já caiu em poder dos Russos e os Alemães sabem o que os espera. Tanto mais que o Ministério de Propaganda de Goebbels explorou ao máximo as atrocidades cometidas pelos invasores de Leste naquele território, nunca falando, obviamente, das cometidas pelo Exército Alemão - e principalmente pela SS – na União Soviética.
Em Abril de 1945 Berlim é há muito um imenso montão de escombros, devido aos constantes bombardeamentos americanos e ingleses. A morte faz parte do quotidiano e o berlinense habituou-se. Com humor negro, brinca com a situação; “seja prático, ofereça um caixão” é a piada que corre no Natal de 1944. Mas em Abril é Primavera, apesar de tudo, e os habitantes da capital alemã não sabem por quanto tempo estarão vivos. Há que aproveitar. O que resta do Jardim Zoológico está aberto e nos intervalos dos bombardeamentos aéreos, as esplanadas reabrem. Pouco há para comer mas não faltam bebidas. A Orquestra Filarmónica de Berlim interpreta o Götterdämmerung de Wagner, o grande compositor anti-semita de quem a música Hitler afirmou ter feito a sua religião. À saída, elementos da Juventude Hitleriana oferecem cápsulas de cianeto aos espectadores. E os berlinenses voltam para os restos das suas casas e caves, ainda mais deprimidos, amontoados no metro que, num exemplo de eficácia prussiana, há-de funcionar até 23 de Abril, com a cidade já sitiada e sob fogo intenso da artilharia russa.
Dia 16 de Abril. Arranca a ofensiva final soviética. É a grande corrida entre Zhukov e Koniev para ver quem chega primeiro à capital da “besta fascista” - muitos soldados soviéticos morrerão inutilmente, apenas para que o seu marechal seja o primeiro a entrar em Berlim. A 18 a frente alemã esboroa-se. É o fim. A cidade, onde se amontoam mais de 3 milhões de civis, é cercada. No dia 20 o ditador nazi faz anos e sobe ao que resta da Chancelaria para cumprimentar os últimos fiéis. Entre eles está Himmler, que o trairá uns dias depois. O responsável pelos campos de concentração onde morreram 6 milhões de pessoas julga poder negociar com os Americanos. Só tem de convencer os Judeus a esquecer a solução final. Quanto a Hitler, é uma sombra de si mesmo. O atentado de 20 de Julho de 1944 e o louco regime diário que cumpre há anos fizeram dele um farrapo humano. Recusa-se a abandonar a cidade. E de qualquer modo, fugir para onde? No Ocidente os aliados passaram o Reno e os soldados alemães rendem-se ao ritmo de 50 mil por dia. Fogem do Leste. Fogem dos Russos. Os SS, em particular, arrancam as insígnias, na esperança de esconderem as atrocidades que cometeram.
Mas há quem combata, ainda. Enquanto no seu bunker Hitler grita, esbraceja e acusa tudo e todos de traição, cá fora, rapazes da Juventude Hitleriana de doze anos, votados à tragédia desde o berço, atacam os tanques russos com armas irrisórias e com uma coragem louca. Combatem por um líder que há anos não aparece em público, por um líder que viajava pelo Reich no seu comboio especial sempre com as cortinas fechadas quando lá fora as cidades se enlutavam de dia para dia, por um líder que quando voltava a Berlim era conduzido ao seu refúgio pelas ruas menos destruídas.
Acto final da tragédia: Hitler casa-se com Eva Braun e a seguir suicidam-se ambos. Milhares de alemães seguem-lhe o exemplo. Um fenómeno que só agora começa a ser estudado. A doutrinação do povo alemã chegara a um nível tal que, para muitos, um mundo sem nazismo não era concebível. O paradigma do horror foi dado por Magda Goebbels que matou os seis filhos com veneno antes dela própria e do marido se suicidarem. Cá fora, no meio das ruínas polvilhadas de cadáveres, as feras do Jardim Zoológico, enlouquecidas, deambulam ao acaso. As últimas rajadas dos defensores são disparadas por um punhado de SS franceses, belgas e nórdicos. Talvez por saberem que para eles, traidores para com as suas pátrias, a derrota significa a morte. Por fim, tudo termina. Berlim rende-se na noite de 1 de Maio. A Alemanha a 8. Estava terminada a matança que assolou a Europa durante quase seis anos. Faltava o Japão e o terror nuclear. Soviéticos e Americanos, aliados de circunstância e vencedores absolutos, em breve virariam as costas um ao outro. A Guerra Fria estava prestes a começar.
Sobre a queda de Berlim:
Um filme - A Queda – os últimos dias de Hitler, de Oliver Hirschbiegel, 2005. (Disponível na escola).
Um livro – A Queda de Berlim, de Antony Beevor, Bertrand Editora, 2003, 551 páginas.
Orlando Lourenço
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Friedrich Staps; morrer pela liberdade aos dezassete anos
A Batalha de Essling, Maio de 1809, por Fernand-Anne Piestre CormonO drama de Staps decorre em 1809, após a sangrenta batalha de Essling – primeiro desaire napoleónico, um verdadeiro prenúncio dos anos seguintes. Friedrich Staps, movido pelo desejo de eliminar o homem que considera a fonte de todos os males que assolam a Europa, desloca-se a Schönbrunn, o Palácio Imperial Austríaco, onde decorre uma parada das tropas francesas. Aproxima-se de Napoleão mas é detido. Revistado – tinha consigo uma enorme faca de cozinha – afirma querer matar o Imperador. Informado, este manda chamá-lo. A conversa entre Staps e Napoleão foi presenciada por várias personalidades e traduzida pelo general Rapp, uma vez que o jovem mal falava Francês. Encontramo-la reproduzida em inúmeras obras, a partir do testemunho que o próprio Rapp nos deixou nas suas Memórias. Eis esse diálogo, reproduzido uma vez mais, entre o Imperador dos Franceses e o «fanático de Schönbrunn», no dizer daquele.
“Napoleão: Que quereis fazer com a vossa faca?
Staps: Matar-vos.
N: Sois louco, jovem; sois um iluminado.
S: Não sou louco. Não sei o que é um iluminado.
N: Então estais doente.
S: Não estou doente. Estou muito bem.
N: Porque me quereis matar?
S: Por que fazeis a infelicidade do meu país.
N: Fiz-vos algum mal?
S: Como a todos os Alemães!
N: Por quem haveis sido enviado? Quem vos impeliu a este crime?
S: Ninguém. Foi a intima convicção de que ao matar-vos presto o maior dos serviços ao meu país e à Europa, que me pôs as armas na mão.”
Napoleão convence-se de que está na presença de um louco e manda chamar o doutor Corvisart para tomar o pulso a Staps. Este não resiste e permanece calmo.
“S: Não é verdade que não estou nada doente?
C: O senhor está bem.
Staps para Napoleão: Eu bem vos havia dito!
N: Sois um exaltado e causais a perda da vossa família. Conceder-vos-ei a vida se pedirdes perdão do crime que haveis querido cometer e do qual vos deveis sentir envergonhado.
S: Não pretendo qualquer perdão. Sinto o mais profundo desgosto de o não ter conseguido!
N: Diabo! Parece que um crime nada é para vós!
S: Matar-vos não é um crime; é um dever!
N: De quem é o retrato que encontraram convosco?
S: É de uma jovem que eu amo…
N: Ela vai afligir-se com a vossa aventura!
S: Vai afligir-se por eu não ter sido bem sucedido. Ela odeia-vos tanto quanto eu!
N: Mas enfim, se eu vos perdoar, ficar-me-eis grato?
S: Não deixarei de vos matar por isso!”
Perante esta resposta, Napoleão, exasperado, mandou levar o jovem. O seu destino estava traçado. Friedrich Staps foi fuzilado no dia 17 de Outubro de 1809. Morreu a gritar “Viva a Liberdade! Viva a Alemanha! Morte ao seu tirano!” Quanto ao Imperador, não compreendeu ou não quis compreender o sinal dos tempos de que aquele rapaz era portador. Teve outros que também não seguiu. No leito de morte, poucos dias após a batalha de Essling, o marechal Lannes dissera-lhe: “Nunca serás mais forte do que eras, mas podes ser mais amado…” Como sabemos, Napoleão não seguiu este conselho e perdeu tudo.
terça-feira, 31 de março de 2009
Tragédia da Ponte das Barcas
Painel de azulejos no Café Novo, Rua da Lapa, Porto, representando a Ponte das Barcas num dia banal, sem soldados franceses por perto.
O mês de Março de 1809 não se apresentou solarengo como o deste ano. Além disso, os Portugueses de então não tinham tempo para desfrutar dos prazeres da Primavera. Os Franceses estavam de regresso, para se desforrarem da derrota sofrida pelo aventureiro que era Junot e pelo seu exército. Napoleão não desistira de conquistar o pequeno país da ponta da Europa que o afrontava desde que decretara o Bloqueio Continental.
Desta vez os Franceses vieram da Galiza e eram chefiados por Nicolau Soult, a quem Napoleão chamou um dia “o melhor manobrador da Europa”. Depois de uma tentativa gorada para atravessar o rio Minho, Soult acabou por entrar em Portugal por Chaves, conquistou Braga e avançou direito ao Porto. Nesta cidade o bispo D. António de Castro tentou organizar a defesa. Contava com cerca de vinte mil homens dos quais poucos eram de facto soldados.
Os invasores chegaram a 27 de Março. Após um reconhecimento, enviaram parlamentários para intimar o bispo da cidade a render-se mas a turba enraivecida assassinou-os brutalmente. A partir daí falariam as armas e o mais forte ganharia.
No final do dia 28 de Março sentia-se a tensão nas ruas do Porto. Adivinhava-se o assalto francês a qualquer momento. Nessa noite, um violento temporal abateu-se sobre a cidade, como que anunciando uma outra tempestade, esta causada pelos homens. Os sinos tocaram a rebate, as igrejas encheram-se de fiéis mas o milagre não aconteceu. Às cinco da manhã a artilharia francesa abriu fogo e às seis a infantaria pôs-se em marcha. Não lhe foi difícil vencer a resistência inimiga. Um breve combate e os Portugueses dispersaram. O pânico espalhou-se por todo o lado e civis e militares precipitaram-se para a Ponte das Barcas que ligava a cidade a Vila Nova de Gaia.
Face à triste fama de que o Exército Francês usufruía por essa altura em Portugal – aliás merecida pelos massacres de Évora e da Guarda, entre outros –, a população, ao ouvir o tiro do canhão cada vez mais perto, só pensava em fugir. Milhares de homens, mulheres e crianças empurraram-se nos estreitos acessos da ponte impelidos pelo medo. Para sua desgraça, o brigadeiro Vaz Pereira dera já ordens para retirar as pranchas do pontão central para que os Franceses não pudessem atravessar o Douro. Ao verem a multidão que afluía à ponte, os militares interromperam a operação mas a largura do tabuleiro reduzira-se já bastante. Cúmulo da infelicidade; os canhões portugueses colocados na Serra do Pilar, na margem sul do rio, que deviam precisamente proteger a ponte, abriram fogo varrendo o tabuleiro selvaticamente. Podemos imaginar o pânico dos infelizes que se empurravam uns aos outros para chegarem a terra. Muitos caíram às águas geladas e morreram. Outros voltaram para trás, onde encontraram os Franceses.
Entretanto, no Porto, os combates continuaram por mais algumas horas, debaixo de chuva, com os Franceses a terem de silenciar pelas armas várias bolsas de resistência. No Paço do Bispo, duzentos membros da Companhia de Eclesiásticos do Porto bateram-se até ao fim. Os últimos foram passados a fio de espada pelos vencedores.
Ao fim da tarde Soult entrou na cidade e não quis - ou não pôde - evitar o saque. Roubos, espancamentos, violações, assassinatos, era disto que fugiam os infortunados da Ponte das Barcas. Muitos não tiveram a sorte de escapar. No dia 1 de Abril estava tudo terminado. Soult tinha agora mais com que se ocupar. Começou a cismar em tornar-se rei da Lusitânia Setentrional (prevista no Tratado de Fontainebleau). Essa atitude valeu-lhe a alcunha de rei Nicolau. É justo dizer que Soult precisava de assegurar as comunicações com a Galiza e arranjar abastecimentos antes de marchar para Lisboa.
Seja como for, Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington e comandante das forças anglo-lusas, é que não esteve pelos ajustes. Enquanto Soult planeava e voltava a planear, Wellesley trouxe o seu exército rapidamente para o Norte e apanhou os Franceses de surpresa. O Porto foi libertado no dia 12 de Maio. Não mais cairia em mãos francesas. Wellesley será doravante o Douro para muitos soldados portugueses. Quanto a Soult, retirou precipitadamente para a Galiza onde chegou sem cinco mil e setecentos dos vinte e quatro mil homens que constituíam o seu exército. Era o segundo general francês a perder a reputação às mãos de Wellesley. Outros se seguiriam. Em breve a Península Ibérica se tornaria um lugar maldito para Exército Francês. Como diziam os seus soldados, “Espanha, [e Portugal também] tesouro dos generais, ruína dos oficiais e túmulo dos soldados.”
Professor Orlando Lourenço
segunda-feira, 9 de março de 2009
Tempos passados
2º. Os que vierem antes daquele tempo nunca aproximarão à escola sem que o professor dê sinal de que são chegadas as horas para nela deverem entrar; e se fora estiverem fazendo gritarias, algazarras ou outras acções indignas, que mostrem o pouco respeito que têm ao mestre, o qual devem supor que os está ouvindo e vigiando, e que também não receiam o castigo, o terão de 3 palmatoadas.
3º. Quando entrarem na escola, ou sairem dela, o farão 2 a 2, e nunca de montão nem encontrando-se uns aos outros; ao primeiro passo que puserem dentro dela dirão em voz que bem se ouça, seja com a cabeça descoberta e o chapéu na mão direita caído pela perna do mesmo lado – Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo – (...) o que faltar a isto tem a pena de 2 palmatoadas.
12º. Determino que sejam corteses para toda a gente, tirando-lhes os seus chapéus ainda mesmo que lhos não tirem; (...) o dos meus discípulos que assim não praticar, tem a pena por qualquer vez de 4 palmatoadas.
21º. Espirrando o mestre, todos se erguerão dizendo – Viva – e se assentarão ao responder ele – Obrigado –; e se for algum condiscípulo, os mais dirão o mesmo, porém assentados, e lhes responderá o que espirrou – Obrigado – e para o mestre – Muito obrigado –, pondo-se de pé imediatamente; o que assim não fizer tem a pena de 2 palmatoadas.
23º. Não lhes é permitido bocejar, espreguiçar-se, nem estarem-se arranhando indecentemente com todas as unhas, na cabeça ou noutras partes do corpo; por serem acções estas que podem deixar de fazer-se sem prejudicar a saúde, e que pelo tempo adiante se tornam viciosas, além de serem nojentas e pecaminosas no meio de uma sociedade bem educada; a quem igualmente escandaliza e ofende muito meter a mão na braguilha ou outras partes desonestas. Todo o meu discípulo deve evitar estes defeitos e, não o fazendo, tem por cada vez a pena de 2 palmatoadas.
24º. Quando lhes abrir a boca involuntariamente, por ser isto uma acção que não pode obstar-se, acudirão logo a cobri-la com a palma da mão que estiver desocupada, para assim encobrirem o que esta acção tem de nojenta e feia; o que assim não fizer tem a pena, por cada vez, de 2 palmatoadas.
25º. Escarrarão brandamente entre os pés, e com estes, sem fazer grande estrondo, esfregarão os escarros de modo que nada se veja deles, o que assim não praticar, tem a pena de 2 palmatoadas.
27º. O que faltar a alguma lição, ainda que seja com justa causa, não trazendo escrito ou pessoa que o desculpe, tem, além da responsabilidade de sempre o trazer, a pena de 4 palmatoadas.
28º. Todo aquele, que depois de um ou mais dias feriados não souber bem as suas lições, ou que na repetição delas não der conta de si exactamente, tem a pena de 4 palmatoadas.”
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
A Galinha de Massena
Durante a terceira invasão francesa (1810), o marechal André Massena, conhecido como o filho querido da Vitória, embora transformado numa sombra do passado, velho, curvado, com uma perna arruinada, cego da vista esquerda (Napoleão disparara sobre ele acidentalmente durante uma caçada, culpando o general Berthier que com cavalheirismo aceitou as culpas!), não deixou de trazer uma amante para melhor suportar as dificuldades da guerra. A senhora chamava-se Henriette Lebreton. Senhora, não menina, pois, ainda que muito jovem, a rapariga era casada e logo com um dos ajudantes-de-campo de Massena. Chefes que traziam esposas ou amantes para as campanhas militares, não era propriamente novidade. No entanto, este affaire especificamente, não foi bem visto pelos soldados. Isto porque o marechal fazia-se acompanhar para todo o lado pela sua preferida (que montava a cavalo vestida com um uniforme de cavalaria), e parecia a todos que a mulher prejudicava a clarividência do grande militar. As tropas referiam-se a Henriette como A Galinha de Massena.
Quando o exército parou em Viseu, aconteceu um episódio que iria prejudicar as relações entre Massena e os seus principais generais – Junot, A Tempestade, tal era o seu feitio, e Ney, o Bravo dos bravos, homem tão corajoso quanto orgulhoso. Massena, que não tinha bons fígados, desejava receber bem os seus tenentes em nome de uma melhor coesão do exército e por isso fez por criar um bom ambiente: mandou arranjar uma mesa no bonito limoal da casa onde se hospedava (a Casa do Arco), e preparou-se para fazer das tripas coração: aguentar uma conversa com Ney e Junot. Na verdade, até fez mais: mostrou-se amável, dando o braço ora a um, ora a outro, enquanto conversavam esperando a hora da refeição. Os ajudantes-de-campo ficaram espantados com aquele espectáculo. Tanto mais que o marechal costumava tomar as refeições apenas na companhia de Henriette. Nesse dia, porém, não só convidava os seus generais como ordenou que a mesa dos ajudantes-de-campo, a cem passos dali, fosse colocada ao lado da sua. O cúmulo da simpatia e das atenções! E tudo parecia correr bem.
Foi então que Massena teve uma ideia infeliz: pediu a presença de Henriette. Depois, com uma falta de tacto incrível – sem perceber sequer que a jovem, que acorreu ao seu chamamento com passinhos rápidos, estacara ao dar pela presença dos lugar-tenentes do amante –, virou-se para Ney e pediu-lhe que desse a mão à senhora e a conduzisse à mesa. O fogoso marechal, que não suportava aquilo que considerava a interferência de uma mulher nos assuntos militares, ficou ainda mais rubro do que já era, claramente desagradado com o que lhe era pedido. Visivelmente contrariado, ofereceu a ponta dos dedos a Henriette, conduzindo-a ao seu lugar. Para piorar as coisas, Massena estabeleceu que Ney se sentasse entre a senhora e o general Montbrun. A primeira à sua direita e o segundo à sua esquerda.
A refeição teve início. Henriette, perspicaz, como qualquer mulher, depressa percebeu que o seu conviva do lado esquerdo a ignorava ostensivamente, dirigindo a palavra apenas a Montbrun. O tempo foi passando e a jovem sentiu-se cada vez mais humilhada. Massena, esse, parecia não dar conta de nada. Pensava talvez que a sua operação de charme fora um sucesso. Como se enganava. Os nervos acabaram por dominar a pobre Henriette. Subitamente, desatou num pranto e antes que alguém pudesse intervir, desmaiou e caiu desamparada no chão (É preciso não esquecer que a melancolia e o dramatismo estavam na moda!).
Foi então que estalou o verniz. «Ao diabo com aqueles imbecis», deve ter pensado Massena! Enquanto a infeliz senhora era levada para os seus aposentos, encrespou-se com Ney e fê-lo com os piores modos. Este último não se ficou atrás e exprimiu bem alto as suas impressões acerca do que pensava daquela situação. Junot, curiosamente, manteve-se calmo. Nem sinais da Tempestade, o homem que anos mais tarde se atirou de uma janela num acesso de fúria.
Tudo isto se passava na presença dos ajudantes-de-campo. Uma vergonha. Ali, a quinhentas léguas de França, os homens a quem estavam confiados os destinos de mais de sessenta mil soldados, trocavam palavras violentas e de maneira a que todos pudessem ouvir. A noite, a certa altura tão promissora, acabava da pior maneira, quando um pouco de sensatez poderia ter evitado a discussão. Como o mal de uns é o bem de outros, quem ganhou foram os Portugueses e os seus aliados Ingleses…e tudo por causa da Galinha de Massena.
Texto do Professor Orlando Lourenço
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Livros recomendáveis (a História da 2ª guerra está na moda!?)
“O Rapaz do Pijama às Riscas”, obra comovente em que o autor, John Boyne, dá a conhecer o Holocausto aos mais novos através de duas personagens: uma judia e outra alemã. Em comum têm o facto de serem crianças. A separá-los, a raça e o arame farpado. É a primeira vez que se tenta uma abordagem deste género. A história é contada com uma simplicidade e ingenuidade desarmantes. Afinal, vemos Auschwitz (Acho-Vil para o pequeno Bruno, filho do comandante do campo de extermínio) pelos olhos de uma criança de nove anos. O final é de fazer chorar. Um livro a ter em conta pelos alunos do 9º ano (conheço alguns que o leram no ano lectivo anterior e gostaram bastante).
Segue-se “Tamar”, de Mal Peet, outro romance original no tema: a Resistência na Holanda e o Inverno da Fome. Vencedor da Carnegie Medal, lê-se de um fôlego e não nos incomoda, diga-mos assim, como “O Rapaz do Pijama às Riscas”, embora Peet crie uma atmosfera de tensão que nos dá uma ideia do modo como viviam (leia-se sobreviviam) os resistentes sob a brutal ocupação nazi.
E o que dizer de “As Gémeas”, de Tessa de Loo, uma holandesa que reside no Algarve e que produziu esta espantosa história em 1993 mas que só o ano passado foi publicada entre nós? Nesta obra, que inspirou um filme homónimo nomeado para um Óscar, acompanhamos a história de duas gémeas alemãs que viram a guerra de duas perspectivas diferentes: separadas muito novas, uma passou pela guerra como holandesa, a outra como alemã. Uma perspectiva diferente que nos mostra que entre os Alemães também houve vítimas.
Por último, “As Benevolentes”, de Jonathan Littell, obra terrível, sombria, provocadora e perturbadora, dá-nos uma visão crua do Holocausto e do nazismo em geral. Vemos a maior barbaridade da História pelos olhos de um nazi invulgar e que passadas muitas décadas não está minimamente arrependido. Vencedor do Prémio Goncourt, provocou um autêntico terramoto em todos os países onde já foi publicado. O escritor Jorge Semprún considerou-o o livro da década.
Conclusão, a Segunda Guerra Mundial vai continuar a dar que falar e não só aos alunos e professores de História. Para terminar, deixo esta frase retirada de “As Gémeas” que resume de um modo magnífico a monstruosidade nazi: «Voltava a haver uma estrutura, uma estrutura que tinha a cor do milho e do céu no Verão (…).» O problema, claro, estava reservado para quem não fosse loiro e não tivesse os olhos azuis.
“O Rapaz do Pijama às Riscas”, John Boyne, Edições ASA, 2007, 176 páginas.
“Tamar”, Mal Peet, Gailivro, 2007, 430 páginas.
“As Gémeas”, Tessa de Loo, Quetzal Editores, 2007, 395 páginas.
“As Benevolentes”, Jonathan Littell, Dom Quixote, 2007, 884 páginas que se lêem obsessivamente.
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