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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Pensamentos de um jovem – Droga viciante


Não sei como começar, como dizer, bem…vou deixar-me de rodeios e contar um episódio a que assisti.

Estava no Café da Esquina, quando apareceu o Tó Zé, assustadíssimo, vociferando e gesticulando freneticamente porque os pacotes de televisão iam subir de preço. O homem estava em pânico! Até pensei que ele ia pegar no microfone do karaoke lá do café e, em voz alta, convocar uma manifestação contra o governo. Sim, uma manif, estamos em democracia ou não? Não é proibido dizer o que nos preocupa em voz alta, pois não? E quando alguém começa a falar alto, costuma juntar-se gente, não é verdade? Daí eu ter usado a palavra manifestação.

Estive tentado a acalmar o pobre coitado, dizendo que deveria estar errado porque tenho recebido folhetos a publicitar, precisamente, o contrário. Mas ele continuava a queixar-se da vida que tinha, do emprego que não tinha, disto e daquilo.

Acabei por me ir embora, a pensar no quanto a TV pesa na vida do cidadão e como ela se pode tornar numa droga viciante: não se consegue passar sem a tal “caixinha” que nos leva o mundo até casa. Já são poucas as pessoas que têm a velha e simpática tradição de ligar a telefonia, que depois passou a dar pelo nome de rádio, juntar os amigos para ouvirem as notícias, ou então, pegar num jornal e exercitar os dotes de leitor, em vez de estragar os olhos, encher a mente com anúncios, publicidade enganosa, meias verdades ou meias mentiras…enfim, a manipulação dos media. Para não falar na tendinite de tanto zapping.

Tenho um conselho a dar ao Tó Zé: ir aos vários canais de comunicação televisiva e tentar negociar os preços. Se não conseguir, a ele e a todos sugiro que peguem num livro e deixem a imaginação invadir-vos.

Termino com um neologismo(?), ou será um vocábulo do novo acordo ortográfico(?): DESTRESSEM.

André Moita, nº2, 10 E

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Em contemplação



Não há local mais próximo de mim, que mais serenidade me traga do que a praia; agora no Inverno a qualquer altura do dia e no Verão de manhã bem cedo e ao pôr-do-sol. Nestas alturas a praia está deserta e o imenso areal está despido de pessoas. Nesta estação do frio e dos ventos ferozes o mar e as suas ondas rebentam na costa livremente lançando a salgada espuma pelo ar. É cheiro a maresia, o toque das minúsculas gotas no meu rosto, o sabor ligeiro a sal nos meus lábios, o estalar do mar, a visão do vazio. Os meus olhos estão fechados.
Do que é composta a vida afinal? O que deve cada um de nós esperar dela? Como pode alguém ter a coragem de se sentir desafortunado depois de tantos meses velozes sabendo de vidas perdidas, vidas mantidas por sorte, ou vontade divina; vidas que não conseguimos saber se não estariam melhor retiradas do que assim mantidas? Como pode alguém amaldiçoar a sua sorte depois de tomar conhecimento da sorte tão amaldiçoada dos outros? Como pode uma pessoa dizer que não quer saber? Quando no meio onde um indivíduo se encontra é composto por pessoas visivelmente afortunadas e sortudos cegos e ele ou ela são desafortunados que vivem no mundo de azarados muito maiores, tudo o que os desafortunados têm a fazer é deixar-se ir pelos momentos bons e sentir a sua tristeza nos momentos maus tal como se deixa o mar ir e vir em função da influência da lua em si.
De manhã, na praia, no Verão, o mar frio e o sol ainda a aquecendo o ar afastam os corpos preguiçosos da areia e da água. E nessa altura em que não mais estão no areal do que as gaivotas e os silenciosos, eu vejo o céu e oiço os sons mocos do oceano, boiando ao sabor das ondas. O meu corpo está leve.
Com tantas formas que há na vida de lidar com o que nos está destinado, como sabemos qual a mais certa para nós e a que custo? Que devemos procurar para cada um de nós? Em que devemos acreditar e conhecer, ou desconhecer e não acreditar? Onde se marca a linha que separa o nosso destino, do nosso livre-arbítrio? Onde está a Verdade? Que haja um Deus; que haja um não haver Deus, o sujeito só encontra aquilo a que está destinado e faz por encontrar. A paz e o equilíbrio se seguem. Homh! «Eu sou».
Ao pôr-do-sol, em que a brisa que corre ainda quente, a praia fica de novo só para mim, o eu poeta que há na escuridão da juventude. O sol parece abraçar o mar pelas costas e este parece sorrir e serenar perante a lua que surge-lhe brilhante. Estou de pé com os braços atrás das costas e os pés a receberem com a ondulação arrepiando-me corpo e alma. O meu coração está sereno.
Porquê? Como? De que maneira? Porquê todo o mundo vê no amor o melhor dos sentimentos? Como sentem as pessoas esse pensamento? De que maneira é que pode ser o amor o melhor de todos os sentimentos? Não haverá nas pessoas a razão e a lógica e o auto-controlo? É possível que seja tão grande a cegueira? Como pode um sentimento com tantas fragilidades, pontos fracos e parcialidade ser o melhor sentimento que o ser humano pode experenciar?
A felicidade é o supremo sentimento, é a fonte da continuidade da existência humana. A felicidade só traz felicidade; não há ilusões, não há rasteiros, não há aspectos negativos em se estar feliz. A felicidade pode ser encontrada por inúmeros caminhos e pode ser encontrada sem estar dependente de ninguém. O amor? Esse pode ser a fonte de felicidade de muitos mas é uma fonte que pode facilmente secar, traz dor, está dependente do outro, pode facilmente ser ilusório, pode ser fonte dos piores dos sentimentos. Para aqueles que só vêm a mais feia face do amor quando para ele sorriem, esperar sem amar até que a face bela do amor nos procure, é a maneira de o indiviudo se poder sujeitar a amar.
A praia é o processo completo pelo qual eu posso passar em meditação e serenidade. O mar lava, o vento leva, a areia retém e subterra.
Fernando Tomáz

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

V's


imagem: instalação de Antony Gormley


Vejo aquele véu, vulto, num vago e verdejante campo cheio de veados.
Vislumbro agora velas de um veleiro velho caindo no vazio. Velas, velas de um vermelho transparente como vidro.
Maldita veia de vingança vaidosa, velhaca mas... vagorosa como a vida. “Vampiros” vagueiam vertendo o sangue dos valentes e dos verdadeiros.
Tudo perde o seu valor e vitórias do passado. Procuro nisto tudo algum valor, alguma vantagem mas tudo em vão. Apenas vejo... vapor e...sinto o vento e... oiço o Verbo. Para quê verbalizar se caímos na vergonha?
Podemos verificar que este facto é verídico. É o fim, da ainda virgem, Verdade.


Fernando Tomáz

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Numa espreitadela




Tudo começou na cama junto à janela onde repouso o meu corpo cansado, procurando descansar a mente dos ruídos humanos no exterior. Há um mergulho tão profundo, uma entrada tão longínqua, nos meus pensamentos que o tecto branco por cima de mim parece ficar pintado com as cores do que penso.
Tudo muda quando num súbito enjoo, por tanto ver o tecto girar, tanto ouvir as pessoas gritar, que serenamente me sento, abro a janela e olho o céu nocturno que se estende infinitamente além das grandes montanhas brancas. Nunca presenciei um tal cenário. Das ruas barulhentas e cheias para o céu há pouco mais que a luz das estrelas; tantas e tão imensas que parecem centenas de orifícios no chão do Paraíso. Viver é algo reles e miserável, cheio de procuras inúteis de tornar o feio e triste em algo que valha a pena fazer, mas a vida essa, é bela, cheia de coisas que fazem valer a pena vivermos – mesmo que na miséria.
Tudo me aborrece quando o barulho em gritos e mal-dizeres e histerias me enchem os ouvidos. Quero sair e ouvir o silêncio, sentir o frio, ver as montanhas, cheirar a rocha húmida e provar a secura dos meus lábios. Quero sair. Vou sair! A noite está fria, mas o meu corpo está quente, envolto em roupas e calor, muito embora eu quisesse me despir, sentir o meu corpo envolto na realidade, atravessar a fronteira-riacho, tropeçar na neve e gelar. A ponte frágil de madeira, vejo-a já perto na rua estreita que desce. Vou para o país vizinho e ando durante muito tempo até chegar aos pés da montanha onde me encosto contra a rocha inclinada e vejo o quadro celestial perante mim, grande e majestoso. Porque há tanta ingratidão? Tanta futilidade e desprezo? A dor que me aperta o coração é do gelo que está sobre a pedra contra as costas e as lágrimas são o frio e a alegria de poder contemplar tamanha beleza.
E as montanhas essas? Grandes reis e rainhas que impõem o medo e o respeito desde os velhos tempos de outrora, refúgios de solidão para os infelizes, morte para os suícidas e aventureiros desafortunados, parecem olhar para mim, julgar-me, esperando pelo vento para ditar a sua sentença. Seja o juízo o meu fim, enterrado naquela neve, ou o privilégio de observar, com olhos de poeta-filósofo, tamanho cenário de grandeza, pouco me importa. Eu agora existo, não vivo. As montanhas decidiram e o vento passa gélido, breve e fraco. Vivo por mais uns segundos.
Tudo me cansa agora, de tanto pensar, de há tanto tempo ter os olhos abertos, de já tanto ter vivido em tão pouco tempo. Ali onde testemunho um profundo silêncio começo a ver o céu a girar por cima da minha cabeça; as estrelas, o céu, as nuvens e a montanha misturam-se e num instante caio na escuridão absoluta. Um espaço, um corpo é tudo o que há. Um corpo, um vazio é tudo o que é.
E tudo terminou com o raiar da aurora matinal. Eu sorrio mas a dor que senti no coração era de melancólica alegria e as lágrimas, de triste divertimento. Estive aqui e estive bem, mas estive eu.
Fernando Tomáz

sexta-feira, 5 de março de 2010

Grão de Areia



Como agarro um grão de areia? Como é que o cheiro? Como é que o sinto? Como sei que o deixei cair? Como sei se o grão que tenho na mão, é o grão de areia que quero verdadeiramente segurar e ter?
O grão de areia vai e vem, mistura-se e confunde-se, é levado e trazido. Cada vez que olhamos para, por exemplo, uma janela, vemos com esquecimento na mente aquele grão de areia que foi levado por entre os outros e aquecido ao ponto de se tornar... vidro.
Não é no grão que há a verdadeira importância, a derradeira força, vejo eu agora. É na imensidão de grãos que fazem uma praia. A areia seca é indestrutível. Não se consegue pegar nela sem que, mais tarde ou mais cedo, ela nos escorregue das mãos por entre os dedos. Com água torna-se maleável. Água apenas.
Que não haja enganos, querida Sophie Mishra, pois os grãos não se enganam, não mentem, não alimentam patéticas ilusões. Mas, oh! Quantas vezes não são os grãos de areia enganados, mentidos e alimentados com patéticas ilusões por forças superiores (para eles divinas) como o vento?! É tão triste!
Mas que pode dar um grão de areia à comunidade, ao mundo além de vidro? Que mais pode um grão de areia dar senão praias lindas e vastas? Um grão é inútil. (Se calhar é por isso que tantos acham a areia irritante.)
Quem contempla um grão de areia? Contemplar, admirar todo o mistério e toda a vida que há nele? Parece que toda a gente o enxota da toalha, do ombro, dos pés, do corpo, da alma. Quem contempla o grão de areia?

Fernando Tomáz

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Adormecido



E em dias escuros, com as nuvens escondendo a luz do sol, dou por mim sem saber o que vejo, o que oiço, sinto ou penso. Sou um poeta das sensações e das emoções sentidas, guardadas no inconsciente, libertas num momento, numa visão, numa frase. As palavras e a forma vêm-me à cabeça e, tão cedo quanto possível, pinto-as com letras pegada seguidas de espaços que antecedem mais letras pegadas, seguindo-se assim este percurso até a última gota escorrer da minha mente para a mão e daí pingar na ponta da caneta que os meus dedos seguram.
É de dia e estou preso numa jaula de quatro paredes, um tecto e um chão. Chão e tecto a condizerem de branco e as paredes todas elas de meio branco, meio amarelo-pálido. Não se vê o sol brilhar lá fora pelas janelas que aos pares ocupam praticamente toda uma parede do lado oposto à porta da jaula. Outras criaturas e seres estão como eu, sossegadamente sentados, presos em consciência, nas cadeiras com as mãos suadas e as mesas molhadas. Presos nesta jaula e não são só criaturas que a enchem, mas também mentes criativas, mentes sábias, diferentes imitações uns dos outros, faladores, calados, cegos e falsos sábios.
E em dias em que lá fora, na jaula maior que sem grades está cheia de seres ainda mais diversos, o tempo está cinzento e das nuvens lá em cima caem as lágrimas de todas as entidades celestiais, minha pessoa adormece. Sei que olho, mas não sei o que vejo nem o que fito – se é que fito; sei que oiço, mas não sei o quão alto nem o que escuto – que na verdade não escuto; sei que penso, mas desconheço o quê, porquê e só sei hoje que penso porque escrevo – se é que escrevo de verdade a pensar. Dizem-me que não reajo a nada; dizem que não respondo ao meu nome nem que estou com atenção ao que quer que possa estar a passar-se. Para estas palavras ditas, tudo o que posso responder dizendo, é: «pois». Mas respondendo pela escrita ao que dizem, falando, direi: «tudo parece, assim de repente, um sonho do qual não me consigo lembrar do que se trata mas sei que sonhei com o corpo acordado enquanto a mente dorme».
E tal como, quando o meu corpo dorme, também quando só a mente o faz, descanso eu; procuro refúgio no dessassossego da confusão que é estar acordado no meu corpo e na minha história. Na sobrevivência que cada semana e mês e ano se revelam ser, num só instante, num momento em que não sei o que sou, quem sou, se sou, onde estou, se estou, porque estou; não há passado, presente ou futuro, não há nada a não ser o nada que vejo nos meus olhos, oiço na minha cabeça, sinto nas minhas mãos. É como o vento.
O verdadeiro sonho não é aquele que nós dizemos em voz alta ter para quando formos “independentes”. O verdadeiro sonho é o que se tem quando se dorme e não temos consciência que o tivemos, pois esse é o sonho que não dói, se não acontecer e que nos alegra quando acontece, porque apesar de não parecer estar lá o sonho, na verdade ele o está. Tal como eu também estou, mesmo quando pareço não estar.




Fernando Tomáz

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Eu, um ser vivente…




Colocaram-me no pior sítio onde um banco quer ser colocado: em frente à praia. E digo-vos porquê: sou feito de madeira e ferro, pintado de um branco muito brilhante. Sou também o único nesta praia. Todos vêm ter comigo e… estou cansado! Estou cansado dos risos da Joana, da fúria constante do João, das lágrimas da Maria e do suor do Sr. Manuel. O meu corpo já não aguenta. As minhas pernas estão enferrujadas devido à humidade, o meu corpo está podre e a minha pele está a estalar por culpa do Ricardo que diariamente entorna o seu sumo em cima de mim.
Já só me resta a alegria de ver o mar, sentir o cheiro a maresia e ver as gaivotas que voam tão perto de mim.
Tenho vinte e um anos de existência. Assisti ao crescimento da Ritinha e à morte do Sr. Pedro. Estou exausto. Quero ser substituído por um banco mais novo. Anseio partir porque eu sei o que todos pensam e oiço o que todos dizem, mas ninguém sabe o que penso e ninguém ouve o que eu digo. Vou partir e levar comigo a lembrança de uma vida e a memória fotográfica de todo este grandioso mar. Vou finalmente ser ouvido. Vou finalmente ser feliz.

Mariana Machado 9ºD; nº 18

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Estes dias sem fim


Hoje é o dia, é um dia especial. Está a chover – e finalmente – vou sair deste bengaleiro horroroso! Estive três meses a ser segurado por este objecto estúpido que não serve para mais nada do que pendurar casacos e malas, nem para me fazer companhia é útil. Estar suspenso por este bengaleiro é o mesmo que estar só; mergulhei numa solidão profunda.
Vou sair para a rua e sentir as gotas da chuva a caírem sobre mim. A Mariana – que foi quem me comprou – vai finalmente poder saltar nas poças de água. Ela está feliz, eu estou feliz.
Foi há quase um ano que combinei com a Camélia (que, para quem não sabe, é a minha melhor amiga é uma gotinha que me faz imensa companhia) que nos encontraríamos naquele local àquela hora.
A Mariana acabou de acordar é só o tempo de ela se arranjar e já estamos lá fora!
Adoro esta sensação: as gotas de chuva a tocarem na minha cabeça – quase que me tiram o cheiro a mofo que adquiri durante o tempo que estive naquele maldito bengaleiro.
Não há crianças na rua, os escorregas e os baloiços estão molhados; não há pessoas na enorme e barulhenta esplanada da D. Rosa; os carros passam e molham tudo e todos à sua volta… Estamos num pleno dia de Inverno e eu adoro sentir-me assim!
A Mariana salta de poça em poça com as suas galochas rosa choque, e eu, mais uma vez, acompanho-a nas suas aventuras. Ambos sabemos que depois disto ela vai ficar doente, mas a alegria apodera-se de nós e hoje não existe nada que nos impeça de nos divertirmos.
Após duas horas de saltos e de gargalhadas caminhamos juntos em direcção à nossa casa. A Camélia não apareceu, contudo não estou surpreendido, e sei que um dia destes ela vai fazer-me (nos) uma visita.
Acabámos de chegar a casa e a Mariana espirra. Estamos encharcados em água. A mãe dela dá-lhe um ralhete e diz que vem aí uma constipação.
Depois do jantar, vamos para o quarto. A Mariana deita-se e eu fico a cuidar dela. Começamos a ouvir a chuva a bater na janela – ambos adoramos este som. Em breve, adormeceremos embalados com esta melodia natural que tanto nos encanta. Boa noite, dorme bem, Mariana.

Cláudia Mota Silva, nº 12, 9º E

Este texto resulta de uma experiência feita pelo mestrando António Peixoto sobre a escrita criativa.